
"Armindo Baptista tem um nome, não porque alguém tenha que chamar por ele, mas porque eu não sabia como dizer Armindo Baptista de outra forma." In Nunca sonhei porque não é fácil
Costumava sentar-me em frente à secretária. Antes das nove horas ia escutando pelo canto do olho, as notícias que as estações de televisão eram capazes de comprar. No dia 12 de Novembro de 1991 a informação chegou mais cedo, o massacre no cemitério de Santa Cruz acabou por entrar nas nossas casas na hora do almoço e sem aviso prévio. O lume brando acabou por queimar a carne, derramando o caldo como nunca tínhamos visto. No meu turno, assisti ao rescaldo da notícia que marcava o dia, mas não foi esse choque que transformei em golpe. Após vários rascunhos, foi numa grande reportagem que traçei o meu registo. O conflito entre Mpla e Unita não representava, além dos sucessivos cenários de destruição, nada de novo para quem decidiu que as colónias deveriam ser entregues a si próprias. Cabe-me a comparação entre uma e outra situação. Imagino uma nave-mãe que larga no espaço um pedaço de si própria. O membro amputado fica desprovido de motor de propulsão, deambula sem rumo, sujeito a convulsões e pirataria. O repórter aproximou-se de uma porta. Dessa porta desaguavam dois degraus gastos e sujeitos ao peso de algumas crianças. Ao cabo de algumas perguntas tão simples como a postura dos entrevistados, o jornalista não suportou a complexidade das respostas. Mas foi através disto que soubemos nessa altura que os meninos de Angola não sabiam sonhar. E hoje, saberão?

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