Arcade Fire - Crown of love

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A vida antes do sonho - Op7


"Armindo Baptista tem um nome, não porque alguém tenha que chamar por ele, mas porque eu não sabia como dizer Armindo Baptista de outra forma." In Nunca sonhei porque não é fácil


Costumava sentar-me em frente à secretária. Antes das nove horas ia escutando pelo canto do olho, as notícias que as estações de televisão eram capazes de comprar. No dia 12 de Novembro de 1991 a informação chegou mais cedo, o massacre no cemitério de Santa Cruz acabou por entrar nas nossas casas na hora do almoço e sem aviso prévio. O lume brando acabou por queimar a carne, derramando o caldo como nunca tínhamos visto. No meu turno, assisti ao rescaldo da notícia que marcava o dia, mas não foi esse choque que transformei em golpe. Após vários rascunhos, foi numa grande reportagem que traçei o meu registo. O conflito entre Mpla e Unita não representava, além dos sucessivos cenários de destruição, nada de novo para quem decidiu que as colónias deveriam ser entregues a si próprias. Cabe-me a comparação entre uma e outra situação. Imagino uma nave-mãe que larga no espaço um pedaço de si própria. O membro amputado fica desprovido de motor de propulsão, deambula sem rumo, sujeito a convulsões e pirataria. O repórter aproximou-se de uma porta. Dessa porta desaguavam dois degraus gastos e sujeitos ao peso de algumas crianças. Ao cabo de algumas perguntas tão simples como a postura dos entrevistados, o jornalista não suportou a complexidade das respostas. Mas foi através disto que soubemos nessa altura que os meninos de Angola não sabiam sonhar. E hoje, saberão?

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