Arcade Fire - Crown of love

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Paralelismo entre o presente e o passado maravilhoso - Op.16

A minha amendoeira tem fruto de duas cores, o fruto cor de fruto e o fruto cor de amêndoa. - In Bochinhas

Uma pequena mala de ferramentas, um triciclo sem arranjo, uma caderneta do Sandokan sem a respectiva espada (essa seria uma das minhas poucas construções), entre outro espólio lúdico, as bochinhas ficaram como referência presente de um passado imprevisível.

A cor da infância e os frutos cor de fruto são símbolos maiores de um Misplaced Chilhood, longínquo mas residente, produtor de imagens e cenários belíssimos, uma autoestrada de regresso.

terça-feira, 2 de março de 2010

O fruto Intemporal - Op.13


Faz de ti uma história própria antes que outros a façam sem o teu registo. Serás um digno personagem da casa de Lantra. - In O Tempo das Colheitas

"All the miners born with a golden heart". Quando estas palavras serviram o Tempo das Colheitas não pensei que um dia pudesse também contrair a feber do ouro. Estas palavras servem a placa dourada de um portão, estão juntas e querem descer para a rua. Podia servir-me do titulo para reivindicar a edicção do livro com o empenho de todo um trabalho anterior, mas isso não me deixaria espaço, além do necessário, para ressuscitar toda a colheita.
Abraçei a razão e descobri a maneira de me transportar para o meio da cidade onde se podem construir castelos e inventar novos reinos. Aqui reside a permissão para navegar no absurdo da palaveas brutas ou em outras mais distintas. Daqui, deste tempo, podemos avistar tudo aquilo que a vontade se lembrar. Viste quem dorme naquele vale onde se tecem os ventres do vento e os factos do sono, o pânico e as janelas da terra? É agora, é já a seguir, segura-te e abraça este novo modo de te cruzares contigo nas imagens do acaso, transformar em palavras os cenários do pensamento. Todo podem faze-lo, todos conseguem! Podes ser louco por um momento ou brincares coma loucura durante o tempo que quiseres.O tempo das colheitas está perto. Será que aguentas? Agarra o teu passado com as duas mãos e inflama o presente sem o adubo dos dias futuros.
Há quem goste da vitamina, há quem não passe sem ela. O alimento nem sempre cria sobriedade. O alimento é a fuga.
Aqui deixo uma canção real e uma banda imaginária, uma canção que abraça o flagelo e a degradação humana, uma banda construída a pensar em muitas coisas, em pessaos e em superestruturas que carregamos etrenamente sem nunca as poder projectar. Não será por isso que deixam de fazer sentido. Quem terá escrito o toxicolar – alguém da Impossible Freedom Band – ?Lantra, cidade supra dimensionada para o mundo dos homens.Lantra não passa de uma muralha sem tempo onde todas as coisas são cópias de coisa nenhuma. A unificar fiquei sem ti, agora que me exponho não me reconheces. O que foi que correu mal? Nada correu mal, estamos no tempo das colheitas...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Os braços à procura do amanhã - Op.24 - parte II


"...Inspirei e soprei na escuridão: – Vem, noite que me abraças sem rodeios, vem calar as palavras que ousam abalar o teu silêncio... E a noite acocorada naquela estrada imaginária desprezou a minha súplica e abraçou-me sem resistência..." In Um abraço pela manhã faz do dia uma margem circunstancial
Depois da festa, o processo de descontrução - não a retirada dos braços - mas o que os levou ao cerco. Há sempre um sonho a mascarar a intenção primária do individuo chamado eu. A parte primeira fala da casualidade e da forma como este texto se impôs no Golpes. De facto, parece-me que ele esteve lá sempre. Sem matrícula ou titulo em anúncio, foi peça residente entre a Transposição do verbo / Cigarros & maçãs. Ali estou eu de forma pura e dura, entre as imagens que levo à noite para a cama e os primeiros devaneios que a alvorada trás.

O abraço... é uma alegoria percorrida naqueles dias em que a terra e o espaço são plenos de metafísica artesanal. O abraço é um pequeno compêndio dos meus dias terrenos, é a forma como sustenso a alma num consolo hermético e silencioso.

Faço-me ao dia com as tremuras da noite, carrego o peso das imagens que o espelho me infligiu, sou fecundo e germino. Perdido entre os braços que me envolveram durante a noite, dificulto a entrega do corpo ao desenho do dia corrente. Acredito que não se entra no red line de mansinho, acredito que estamos perto vezes sem conta e nem sabemos da fragilidade das pastas onde se abrigam os documentos emocionais.

"... constantemente pensava que as evasões cerebrais não podiam ser alvo das coroações sociais e da dialética right and wrong. Constantemente pensei que as igrejas que punem pelo pecado da omissão fossem impuras no desagrupamento dos elementos disponiveis. Ainda penso assim, mas depois do abraço tudo parece mais turvo. Começando pelo fim, não quero ser julgado pelos sonhos que me percorrem, não quero ser eu quem faculta as armas à consiência e ser alvo das minhas próprias armadilhas. Pensei que o amor podia ser servido em créditos. Frequentemente olho para o meu saldo, sou positivo na avaliação. Mas o envolvimento e os afectos são mais do que isso, super-estrutura não mensurável, diabólico turbilhão dos sentidos, o amor é orgânico e plástico. Na primeira falha cobra e não perdoa. A verdade está servida na estrada que tive de percorrer, gelado como nas noites que dormi sozinho naquela enorme cama quente. Troquei os créditos por fichas e isso não me valeu, por isso fui cuspido e atirado para o macadame. Do céu e na terra fui enviado vezes sem conta num bulício doentio. Não há lugar para o esquecimento... Voltei à minha cama e procurei o momento preciso em que deixei escapar as minhas marcas originais. Entre a revolta e o reencontro percebi que um abraço..."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Os braços à procura do amanhã - Op.24 - parte I

Em Janeiro de 2001 encontrei uma imagem que reflctia o encanto das flores do campo quando - à falta de ornamento - ficam dispersas na ruralidade do seu despertar. A frase - um abraço pela manhã faz do dia uma margem circunstancial - ficou como título de um quadro que não pintei.
Essa frase permaneceu durante oito anos nas paredes da minha casa. Sem que eu soubesse porquê, foi resistindo às sucessivas transformações do espólio mural.
Na última revisão do Golpes olhei para aquela frase que ao sentir-se observada, mergulhou por entre os outros textos que a envolveram em cadeia definitiva. Num segundo aliviei a carga que durante tantos anos ficara presa na parede. Por vezes escrevo frases que reflectem uma situação tipo ou que podem entitular uma dispersão de sentidos. Muitas delas não resistem às manifestações do tempo enquanto força dos dias futuros. Mas esta frase em particular tinha, não só a força das flores campestres, mas uma intolerante persistência em afirmar-se diante dos meus olhos. Para quem não acredita no destino enquanto regulador máximo do nosso vinco à vida, não deixa de pesar o facto de, a poucos dias da edicção do livro, o texto surgir e cair como uma luva no título enunciado. A sua celebração foi feroz, a escolha para a leitura de um texto do livro recaiu sobre Um abraço - em letra capital - não de circunstância mas de feição. Sim, foi bonita a festa pá!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

FOI BONITA A FESTA, PÁ!



Sei que houve festa, pá
fico contente e enquanto estou ausente
guarda um livro para mim
eu queria estar na festa, pá
com a tua gente
e comprar pessoalmente
um exemplar para mim
sei que há léguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
sei também que é preciso, pá
navegar, navegar
lá faz primavera, pá
cá estou escrevendo
manda urgentemente
alguma prosa para mim
foi bonita a festa, pá
fiquei contente
ainda guardo com saudade
o que escreveste para mim
alegraram a tua festa, pá
certamente porque nunca se esqueçem de ti
sei que há léguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
sei, também, quanto é preciso, pá
navegar, navegar
canta primavera, pá
cá estou contente
manda novamente alguma prosa para mim

adaptação do texto que serve a canção "Tanto mar - 2ª versão" de Chico Buarque

Agradeço a todos aqueles que estiveram comigo
de forma presencial e nas outras formas que conheço
na noite do lançamento do "Golpes de Espelho".

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

BEM VINDOS TODOS AO SALÃO DE FESTAS


Benvindos todos ao salão de festas / faz bem andar metido nestas andanças / se agora danças logo pensas e mais / fazes diferentes dias que eram iguais /ora puxa o corpo pra cá quero o eco aqui que é de lá /faz por mexer mexe e faz com que (oxalá!) /amanhã seja o que não há /que bem se canta na sé /mas é só para quem é /um sentado outro em pé /mas aqui quem canta é quem quiser (olha quem!) / isto enquanto é um canto está sentado o desdém / benvindos todos ao salão de festas desbravaremos de florestas a mares / se vai pelos ares logo pousas e penso /melhor irás entre o furor e o bom senso /ora puxa o corpo pr’aqui /quero o eco cá que é daí / faz por fazer o que hoje queres pra ti / e que amanhã seja o que não vi / que bem se canta na sé / mas é só para quem é / um sentado outro de pé / mas aqui quem canta é quem quiser (olha quem!) /isto enquanto é um canto está sentado o desdém / quem dera que a energia que eu trouxe pudesse /habitar um só dia que fosse o calor da tua hospedaria

domingo, 29 de novembro de 2009

A ESPERA

Faltam 11 dias para o dia 11. Falarei durante 11 minutos perante mais de 11 pessoas...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A ENTREGA (parte II)

Por vezes é quando menos se espera que as coisas surgem. Faltam poucas horas para efectuar a entrega. Preparei cuidadosamente todos os ficheiros, as partes de um todo fraccionado. A gestação não vais ser longa, segundo os obstetras, durante os próximos trinta dias, a cabeça, o tronco e os membros estarão formados e prontos para ver a luz do dia. Capa, contra capa, corpo do texto, badana, gravuras, enfim as ligações entre as partes serão estabelecidas e edificadas. "É tudo novo, para mim tudo é novo"!
Será assim dentro de algumas semanas, o espelho dará o golpe mostrando as suas parte visíveis. Será sereno?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Os cavalos-humanos de Calcutá - Op.4


"Quando mato alguém, sinto-me estranho e deprimido!" In
Tiananmen, Dili, Soweto, ou Qualquer Outra "Cidade da Alegria"
(Esta Agitação Mortal)

Este texto jamais poderia existir não fosse a minha teimosia em axexar vários temas desconexos. Aqui deixei fragmentos do livro de Dominique Lapierre/Cidade da alegria; o massacre no cemitério de Dili e a chacina na Praça de Tiananmen. Juntei a este melting pot uma banda sonora composta por uma única peça: The Jeweller/This Mortal Coil.

Esta é a tradução de uma visão onde o Estado moral pode ser encontado em qualquer cidade do mundo. Utopia percipitada nas imagens que os olhos não querem ver e que memória teima em não apagar. Esta é a prova de que o futuro é estranho e perigoso. Muitoss acordos assinados não passam de promessas assinadas em papel molhado, em vãs tentativas de iludir a democracia e o respeito do homem pelo homem.

Algumas das minhas agitações mortais jazem aqui, neste pequeno golpe por sarar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pequenas metragens e outros filmes - Op.10

"Sou desta carne pestilenta que suga, sangra e rasga carne desta que sou. O planeta está coberto, é fértil, fosco e fecundo. Cega será a chama deste parto vulcânico." In Ausência de um espírito comum."
Aqui estão guardadas as guerras dos meus dez anos de idade. É provável que a de 79 no Afeganistão dentro do contexto da guerra fria seja a fotogafria perfeita para esta ilustração verbal. O presidente Reagan e a sua amiga Thatcher são peças de um tabuleiro datado da época da revolução industrial e as duas maiores aberrações das estratégias democráticas deste planeta.

Em contraponto e com a vantagem da distância histórica dos acontecimentos, os live aid's e outras mobilizações semelhantes trouxeram a vantagem da visibilidade escondida, mas serviu a música o propósito enunciado? Estou convicto que isso aconteçeu, estou certo que Bob Geldof lutou sozinho na defesa do castelo de areia que ele próprio construiu na mará vaza. Recordo a mesa das negociações repleta de colarinhos brancos e gravatas de seda, no centro da mesma o Sir, vestido como um verme mas de discurso afiado e contudente. Mas o que ficou para além disso? O cansaço do protagonista principal e o caos do universo. Aqui, as referências deixaram de existir. A história que se escrevia sobre algumas gerações é agora um colorário apenas de uns parcos highlights do ano que passou. E nós, quem somos?

Ainda sobre os movimentos de solidariedade e ajustando o contexto a uma determinação que o Estado deveria ter aprovado logo no inicio da década de 80, penso que o fim do serviço militar obrigatório tem duas décadas de atraso. Se após o 25 de Abril a verdura do sistema democrático não permitiu com celeridade tirar todo o bolor da sociedade portuguesa, incluindo os tentáculos dos organismos da suposta defesa nacional, depois disso muito ficou por fazer. A necessidade - ainda actual - de um serviço público de qualidade justifica este fim. Aos 20 anos seriam ministrados cursos nas áreas da saúde, cidadania, pretecção entre outros. O Estado com um orçamento bastante menor do que o orçamento para a manutenção das formas armadas de base - contigente obrigatório - teria ao seu dispor um serviço público mais eficiente e um processo de entrada na vida adulta compativel com as necessidades reais da nossa sociedade. Ou isso ou ensinar a disparar contra o inimigo. Inimigo? Mas qual inimigo?

As minhas palavras não servem um processo até à sua exaustão. Nem falsas nem eficazes, voláteis como o ser.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

À flor da pele branca, vermelha e negra - Op.20



"Facultei-lhe o meu corpo e violou-me a memória. No abuso sincero da necessidade contínua, repousa incólume a montra dos sentidos.
Frequentemente, sempre depois da última vez, reinventa formas para as mesmas verdades - expressões da epiderme -." In Expressões da Epiderme I - White label.
A música moderna portuguesa tem numa das suas primeiras bandeiras um título muito idêntico ao opus 20. Desta feita são três tarjas que completam aquilo que o rapaz caleidoscópio iniciou em 1981. O cinema traz-me também uma grande aproximação às expressões da epiderme tripartidas - Krzysztof Kieslowski e o Trois couleurs: Bleu/Blanc/Rouge traduzem o que nunca poderei fazer aqui: traduzir em palavras as imagens que o ecrã não pode escrever.

A expressão white é um espaço acolhedor onde tudo foi pensado ao pormenor. Pode ser vista como a barca dos amantes ou a noite onde as horas não contam. A branca expressão é iluminada por uma luz ténue que revela apenas os caminhos do corpo. A pele a e restante nudez transpõem os seus horizontes habituais. Esta é uma marca de fantasia pouco colorida, um conjunto de sombras quentes e enfurecidas com o frio da madrugada.

A expressão red só existe porque o tempo não sabe esperar, porque não podemos ser eternos. A amargura do dia seguinte é como um inferno quieto. A sua existência basta para que nunca possamos sossegar. É neste estado de inquitação que a expressão vermelha reside.

A expressão black tem uma existência híbrida. Pode manifestar-se se a fraqueza humana o permitir. Há quem ultrapasse a luz do dia e se vingue com o sol a cair entre os montes e há quem não tenha força para encarar a exposição. Preto para quem não se consegue libertar.

As minhas melhores expressões epidérmicas são episódios que não quero esqueçer, são horas entre o tudo e o nada, entre a saliva e o silêncio perfeito.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O caminho do estranho-amor - Op9


"Recolhe-me, doseia-me pelo risco vermelho, trata-me como da última vez. Vai ao fundo se puderes, molha os lábios na superfície, retoma o fôlego e prepara-me a noite. Faz como entenderes mas recolhe-me. Recolhe-me com as tuas unhas, marca-me com as tuas marcas, liberta-me da vigília do espelho ou salta comigo para dentro dele." In Jornada onírica na Escotilha do teu ventre


Juntamente com a Grande Núvem de Magalhães, a Jornada configura a estrutura do guião para uma obra conceptual. Degrau a degrau, os movimento protagonizados ganham personagens e posturas que terão no seu epílogo as cores derramadas do papel invisível.
Para fugir ao óbvio, ao grupo das palavras do parágrafo anterior, vou ganhar moderação e dar brilho ao primeiro post deste blog.
A Jornada não é mais do que uma alegoria sobre a depedência de um homem face ao corpo da sua mulher. A fragilidade das relações, a forma como gerem os fenómenos físicos de atracção e repulsa. A necessidade e o desespero. O conhecimento do outro e o próprio conhecimento. Assim é este quadro, de linho branco, pele morena e beijos de saliva. Blood, sweat and tears!
Um carnaval onde tudo aparece perfeito, uma tensão que culmina com a dança dos corpos numa cama que gira sobre si própria, afastando os anjos que teimam em segurar as pontas do cenário.
A chuva não tarda, é abundante, é tamanha, os corpos emergem e esperneiam em movimentos desenfreados. Um frenesim afogado, sem fogo, névoa ou transparências opacas.
No regresso encontramos o conforto do abraço maternal ou a eterna dúvida de um amor definitivo.
Na Jornada partimos de uma convulsão cerebral, percorremos planicíes e planaltos, na Jornada acabamos por mergulhar na incerteza. E o amor será triste?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cachimbos e frutos celestes - Op17

"Amanhã, quando leres isto, já não estarei aqui. Durante nove dias vou estar em frequência modulada. O satélite é caseiro, mas eu não vou p'ra longe. As limalhas estão limpas e o resto dos temperos na caixa de ferramentas." In Cigarros e maçãs
Aprendi com alguns Cant'autores que o jogo de contrastes pode servir e alimentar uma multiplicidade de sentidos. Muito para além do domínio da língua ou das palavras, é necessário viver em abundante riqueza de trocadilhos. Baralhar e voltar a dar! É disto que vive a alternância da figura e do seu significado. Quando acabei os cigarros e as maçãs, pensei estar dentro de um ufo, numa camara onde os botões não fizesse mais sentido, tudo estaria defenido pela autonimia da máquina que o homem elaborou. O texto é uma curta viagem que começa na terra do chão e acaba na poeira espacial. A transição do teclado da máquina de escrever para o do computador pessoal traz avanços e recuos, ganhos e perdas. Assim foi com a fruta do paraiso, colhida para tentar, assim é com o cigarro que liberta e faz libertar. O texto acaba por seu uma visão retro de um futuro ultrapassado

UM OLHAR DE RASPÃO

Passei por aqui apenas para ver como estão as decorrer as obras. Depois de ler as gordas e algumas das mais pequenas, acho que o gajo se passou. Tanta merda sobre a prosa poética e agora deparo-me com a prosa desnudada. Afinal, daquela complexa estrutura onde dificilmente se entra e raramente se sai, também é visível um esqueleto pouco transparente mas sólido. A isto se pode acrescentar, um discurso lighter than the bricks, quer isto dizer, que o alinhamento contém uma linguagem própria para mortais, um nexo diagnosticado desde o princípio. A expressão na outra língua que Pessoa também usou, reporta para o conjunto de textos que o gajo escreveu entre 1984 e 1990. Se souberem desse aglomerado de folhas, ou de uma pasta verde com textos diversos, será uma vitória para o círculo e para o encontro dos pólos. A isso se chamará Epítome dos Brandos Dias. Assim como entrei, vou sair com este olhar de raspão. O gajo voltará, estou certo disso. Vejo ainda um nevoeiro muito denso e golpes pouco profundos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A vida antes do sonho - Op7


"Armindo Baptista tem um nome, não porque alguém tenha que chamar por ele, mas porque eu não sabia como dizer Armindo Baptista de outra forma." In Nunca sonhei porque não é fácil


Costumava sentar-me em frente à secretária. Antes das nove horas ia escutando pelo canto do olho, as notícias que as estações de televisão eram capazes de comprar. No dia 12 de Novembro de 1991 a informação chegou mais cedo, o massacre no cemitério de Santa Cruz acabou por entrar nas nossas casas na hora do almoço e sem aviso prévio. O lume brando acabou por queimar a carne, derramando o caldo como nunca tínhamos visto. No meu turno, assisti ao rescaldo da notícia que marcava o dia, mas não foi esse choque que transformei em golpe. Após vários rascunhos, foi numa grande reportagem que traçei o meu registo. O conflito entre Mpla e Unita não representava, além dos sucessivos cenários de destruição, nada de novo para quem decidiu que as colónias deveriam ser entregues a si próprias. Cabe-me a comparação entre uma e outra situação. Imagino uma nave-mãe que larga no espaço um pedaço de si própria. O membro amputado fica desprovido de motor de propulsão, deambula sem rumo, sujeito a convulsões e pirataria. O repórter aproximou-se de uma porta. Dessa porta desaguavam dois degraus gastos e sujeitos ao peso de algumas crianças. Ao cabo de algumas perguntas tão simples como a postura dos entrevistados, o jornalista não suportou a complexidade das respostas. Mas foi através disto que soubemos nessa altura que os meninos de Angola não sabiam sonhar. E hoje, saberão?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O verbo transposto - Op5


"De um troço de estrada marcado pelo esforço do homem, sobram os sulcos mais profundos das rodas de um engenho puxado pela força da nossa imaginação" In Transposições do Verbo


Em 1983 abri um long-play onde tinha sido esculpido o guião para uma história a que o autor quis dar música. O lado B abria com um pequeno texto que sublinhava as dificuldades com que uma família se deparou quando decidiu partir da cidade para a clareira da floresta. As enciclopédias e o conhecimento hermético não foram capazes de resolver as questões mais simples. Saíram na Primavera, ofuscados pelo brilho do sol no orvalho da vegetação, não pensaram que à chegada do Outono, a t seria tão arriscada. Assim que o céu escureceu, correram até á cidade mais próxima para adquirir alguns antibióticos. Quantos não conhecem o meio envolvente e os seus recursos?


Foi o registo da partida para o bosque e o encanto com uma forma de vida pouco sustentável que provocou a transposição do verbo. O encontro com novas espécies, os ornamentos deixados para trás e a convivência com os insectos foram determinantes para criar um ambiente de permuta, o limbo do real. A imaginação encarregou-se de projectar um quadro botânico e surreal.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O acordar dos anjos - Op1


"Sei dos anjos e das aguarelas. Sei do riso das paisagens e das faces do passado. Lá em cima, no tecto da minha terra, tudo é transparente e trespassável. Há quem troque de corpo, há quem troque de lâmina. Aqui, trocamos palavras". In Os anjos também dormem - parte II.
Janeiro de 1992. As curtas viagens de comboio tornaram-se regulares. Durante alguns meses, Amadora e Chelas estiveram nas extremidades dos horários que tinha de cumprir. O metropolitano, as boleias e alguns esticões dentro das botas alentejanas nunca me deixaram ficar mal! Por esta altura ainda não tinha perdido o hábito de compôr dez ou quinze canções por semana, mesmo que ao fim de alguns meses só restassem uma mão cheia delas.
Foi neste contexto, e no princípio de uma noite muito fria, naquela escola onde penduraram um quadro de Vitorino Nemésio que decidi acordar os anjos. Ainda a primeira folha A4 não tinha o conteúdo por inteiro, já me aventurava a esculpir estas coisas do sono dos outros num sistema 3.86 com janelas voadoras 3 ponto qualquer coisa numa versão para workgroups. O processamento de texto dava-lhe, não um carácter definitivo, mas o rótulo ficheiro.
Lembro-me de algumas discussões com os amigos em que trocava-mos impressões sobre a individualidade espiritual. Fui sempre fiel à noção de que quanto mais perto estiver de um todo divino mais facilidade terei em escrever alguma coisa sobre o assunto.
Por último quero dizer-vos que os anjos são reais, os anjos são crianças que correm nas ruas de Sarajevo.
Quis forçar a condição do sol e da lua enquanto difusores do metabolismo humano. Não tenho forma de edificar matéria nos corpos dos anjos celestes, nos outros posso eu tocar-lhes nas asas e voar com eles sobre os céus das cidades. Quis mostrar que à chamada da nudez lunar e dos tentáculos solares, os anjos também se quedam.
Não foi minha preocupação articular a existência dos anjos com os registos biblícos nem estimular uma discussão entre católicos e protestantes, muito menos usar o tema para acender fogueiras já extintas em séculos anteriores.
O anjo que eu quis ressuscitar decorre da necessidade de aproximar o real ao divino. Por outro lado, quase todos evocam uma entidade protectora e espiritual, o meu-teu, o nosso António - não o Santo popular, mas aquele que dizia que estava - Além - onde existe o - dar e receber - como forma de ser anjo. O Santo-poeta é aquele que exalta a voz do Deus-povo.
Foi o bulício entre as extremidades deste dois mundos Céu e Terra ou Amadora e Chelas que incomodaram o descanso eterno dos Anjos.
Talvez seja na necessidade de encontrar caminhos que nos coloquem no trilho que decorre entre estes pólos que se funda tanta inquietação.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A ENTREGA (parte I)

Não acrerdito nem na sorte nem no destino, na vã tentativa de querer explicar coisas que não têm perceber. Não acredito nas formas mas nos moldes que traçam as depressões e curvas de nível nas palmas das nossas mãos. This was not a request but an answer! Ontem fiz uma entrega, um exemplar dos golpes. Um acto simples, um golpe exemplar, pleno. É assim que vejo o funcionamento das pessoas enquanto singularidades institucionais. Corpos tantos e tantos valores não mensuráveis. A busca do conhecimento num corpo estranho traz a diferença e a demasia, activa filtros e edifica novos conceitos. Este é um sinal de partilha, de terra revolvida e de substância orgânica para que os actores reconheçam o palco que pisam. A entrega fez-se no patamar da escada, na porta contrária aquela que o poeta escreveu no pano-crú, ali mesmo no 2º andar.

domingo, 29 de março de 2009

GOLPES PROFUNDOS

Tal como esperava, as primeira reacções começaram por testar a minha capacidade de resposta às questões dos leitores. Guardei para mim próprio a promessa da fuga imediata: "Leiam e tirem as vossas próprias conclusões, se soubesse que estaria obrigado a explicar tudo aquilo que escrevi, nunca o teria feito, é um absurdo!". O tempo, os contextos e os espaços que vamos encontrando, suportam novas vontades, equilibram cenários de um passado oculto. Penso que serei capaz, nesta visibilidade com endereço próprio, de esfolar alguns dos golpes, ou mesmo todos se a poética p'raí se quedar. Em prosa ou em linguagem corrente, darei, ao sabor dos meus alentos, os níveis e desníveis que os espelhos encerram. Sejam bem vindos ao submundo da transcrição cerebral. Wellcome aboard...