
"Recolhe-me, doseia-me pelo risco vermelho, trata-me como da última vez. Vai ao fundo se puderes, molha os lábios na superfície, retoma o fôlego e prepara-me a noite. Faz como entenderes mas recolhe-me. Recolhe-me com as tuas unhas, marca-me com as tuas marcas, liberta-me da vigília do espelho ou salta comigo para dentro dele." In Jornada onírica na Escotilha do teu ventre
Juntamente com a Grande Núvem de Magalhães, a Jornada configura a estrutura do guião para uma obra conceptual. Degrau a degrau, os movimento protagonizados ganham personagens e posturas que terão no seu epílogo as cores derramadas do papel invisível.
Para fugir ao óbvio, ao grupo das palavras do parágrafo anterior, vou ganhar moderação e dar brilho ao primeiro post deste blog.
A Jornada não é mais do que uma alegoria sobre a depedência de um homem face ao corpo da sua mulher. A fragilidade das relações, a forma como gerem os fenómenos físicos de atracção e repulsa. A necessidade e o desespero. O conhecimento do outro e o próprio conhecimento. Assim é este quadro, de linho branco, pele morena e beijos de saliva. Blood, sweat and tears!
Um carnaval onde tudo aparece perfeito, uma tensão que culmina com a dança dos corpos numa cama que gira sobre si própria, afastando os anjos que teimam em segurar as pontas do cenário.
A chuva não tarda, é abundante, é tamanha, os corpos emergem e esperneiam em movimentos desenfreados. Um frenesim afogado, sem fogo, névoa ou transparências opacas.
No regresso encontramos o conforto do abraço maternal ou a eterna dúvida de um amor definitivo.
Na Jornada partimos de uma convulsão cerebral, percorremos planicíes e planaltos, na Jornada acabamos por mergulhar na incerteza. E o amor será triste?

Sem comentários:
Enviar um comentário