Arcade Fire - Crown of love

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Os braços à procura do amanhã - Op.24 - parte II


"...Inspirei e soprei na escuridão: – Vem, noite que me abraças sem rodeios, vem calar as palavras que ousam abalar o teu silêncio... E a noite acocorada naquela estrada imaginária desprezou a minha súplica e abraçou-me sem resistência..." In Um abraço pela manhã faz do dia uma margem circunstancial
Depois da festa, o processo de descontrução - não a retirada dos braços - mas o que os levou ao cerco. Há sempre um sonho a mascarar a intenção primária do individuo chamado eu. A parte primeira fala da casualidade e da forma como este texto se impôs no Golpes. De facto, parece-me que ele esteve lá sempre. Sem matrícula ou titulo em anúncio, foi peça residente entre a Transposição do verbo / Cigarros & maçãs. Ali estou eu de forma pura e dura, entre as imagens que levo à noite para a cama e os primeiros devaneios que a alvorada trás.

O abraço... é uma alegoria percorrida naqueles dias em que a terra e o espaço são plenos de metafísica artesanal. O abraço é um pequeno compêndio dos meus dias terrenos, é a forma como sustenso a alma num consolo hermético e silencioso.

Faço-me ao dia com as tremuras da noite, carrego o peso das imagens que o espelho me infligiu, sou fecundo e germino. Perdido entre os braços que me envolveram durante a noite, dificulto a entrega do corpo ao desenho do dia corrente. Acredito que não se entra no red line de mansinho, acredito que estamos perto vezes sem conta e nem sabemos da fragilidade das pastas onde se abrigam os documentos emocionais.

"... constantemente pensava que as evasões cerebrais não podiam ser alvo das coroações sociais e da dialética right and wrong. Constantemente pensei que as igrejas que punem pelo pecado da omissão fossem impuras no desagrupamento dos elementos disponiveis. Ainda penso assim, mas depois do abraço tudo parece mais turvo. Começando pelo fim, não quero ser julgado pelos sonhos que me percorrem, não quero ser eu quem faculta as armas à consiência e ser alvo das minhas próprias armadilhas. Pensei que o amor podia ser servido em créditos. Frequentemente olho para o meu saldo, sou positivo na avaliação. Mas o envolvimento e os afectos são mais do que isso, super-estrutura não mensurável, diabólico turbilhão dos sentidos, o amor é orgânico e plástico. Na primeira falha cobra e não perdoa. A verdade está servida na estrada que tive de percorrer, gelado como nas noites que dormi sozinho naquela enorme cama quente. Troquei os créditos por fichas e isso não me valeu, por isso fui cuspido e atirado para o macadame. Do céu e na terra fui enviado vezes sem conta num bulício doentio. Não há lugar para o esquecimento... Voltei à minha cama e procurei o momento preciso em que deixei escapar as minhas marcas originais. Entre a revolta e o reencontro percebi que um abraço..."

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