
"Sei dos anjos e das aguarelas. Sei do riso das paisagens e das faces do passado. Lá em cima, no tecto da minha terra, tudo é transparente e trespassável. Há quem troque de corpo, há quem troque de lâmina. Aqui, trocamos palavras". In Os anjos também dormem - parte II.
Janeiro de 1992. As curtas viagens de comboio tornaram-se regulares. Durante alguns meses, Amadora e Chelas estiveram nas extremidades dos horários que tinha de cumprir. O metropolitano, as boleias e alguns esticões dentro das botas alentejanas nunca me deixaram ficar mal! Por esta altura ainda não tinha perdido o hábito de compôr dez ou quinze canções por semana, mesmo que ao fim de alguns meses só restassem uma mão cheia delas.
Foi neste contexto, e no princípio de uma noite muito fria, naquela escola onde penduraram um quadro de Vitorino Nemésio que decidi acordar os anjos. Ainda a primeira folha A4 não tinha o conteúdo por inteiro, já me aventurava a esculpir estas coisas do sono dos outros num sistema 3.86 com janelas voadoras 3 ponto qualquer coisa numa versão para workgroups. O processamento de texto dava-lhe, não um carácter definitivo, mas o rótulo ficheiro.
Foi neste contexto, e no princípio de uma noite muito fria, naquela escola onde penduraram um quadro de Vitorino Nemésio que decidi acordar os anjos. Ainda a primeira folha A4 não tinha o conteúdo por inteiro, já me aventurava a esculpir estas coisas do sono dos outros num sistema 3.86 com janelas voadoras 3 ponto qualquer coisa numa versão para workgroups. O processamento de texto dava-lhe, não um carácter definitivo, mas o rótulo ficheiro.
Lembro-me de algumas discussões com os amigos em que trocava-mos impressões sobre a individualidade espiritual. Fui sempre fiel à noção de que quanto mais perto estiver de um todo divino mais facilidade terei em escrever alguma coisa sobre o assunto.
Por último quero dizer-vos que os anjos são reais, os anjos são crianças que correm nas ruas de Sarajevo.
Quis forçar a condição do sol e da lua enquanto difusores do metabolismo humano. Não tenho forma de edificar matéria nos corpos dos anjos celestes, nos outros posso eu tocar-lhes nas asas e voar com eles sobre os céus das cidades. Quis mostrar que à chamada da nudez lunar e dos tentáculos solares, os anjos também se quedam.
Não foi minha preocupação articular a existência dos anjos com os registos biblícos nem estimular uma discussão entre católicos e protestantes, muito menos usar o tema para acender fogueiras já extintas em séculos anteriores.
Não foi minha preocupação articular a existência dos anjos com os registos biblícos nem estimular uma discussão entre católicos e protestantes, muito menos usar o tema para acender fogueiras já extintas em séculos anteriores.
O anjo que eu quis ressuscitar decorre da necessidade de aproximar o real ao divino. Por outro lado, quase todos evocam uma entidade protectora e espiritual, o meu-teu, o nosso António - não o Santo popular, mas aquele que dizia que estava - Além - onde existe o - dar e receber - como forma de ser anjo. O Santo-poeta é aquele que exalta a voz do Deus-povo.
Foi o bulício entre as extremidades deste dois mundos Céu e Terra ou Amadora e Chelas que incomodaram o descanso eterno dos Anjos.
Talvez seja na necessidade de encontrar caminhos que nos coloquem no trilho que decorre entre estes pólos que se funda tanta inquietação.

Sem comentários:
Enviar um comentário